“Acredito que a Juyè de hoje é uma pessoa muito mais amadurecida e eu vou tentar mostrar isso no meu trabalho”

Juyè é uma cantora e compositora paraense nascida e criada na aldeia indígena Parakaña, no Tocantins. Ela viveu lá até os 10 anos e depois saiu para morar com a mãe na Cidade Maravilhosa, onde iniciou os estudos de canto e piano no Conservatório de Música do Rio de Janeiro. De lá pra cá, ela vem trabalhando com composição e na área de produção e tecnologia cervejeira, ou seja, ela produz cerveja artesanal. A artista compôs samba por anos e tem como madrinha dela a Sandra de Sá, até que recebeu um convite para participar das primeiras músicas da produtora de rap “1Kilo”.

Há cerca de um ano, a mestre cervejeira se envolveu em uma polêmica com a produtora Pineapple Brainstorm Estúdio, após ser cortada da faixa “Poesia Acústica 4” sem nenhum aviso prévio. O motivo teria sido um afastamento da compositora, que estava se preparando para iniciar uma carreira internacional e já tinha avisado isso à Pineapple anteriormente. Depois de se desvincular do grupo, a cantora acabou perdendo todas as músicas do álbum que estava prestes a lançar e que haviam sido gravadas pelo estúdio. A realização mais recente dela foi uma participação no disco do rapper BK’, intitulado “Gigantes”, na música que leva o mesmo nome da obra.

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Juyè promete voltar com tudo em 2019. (Foto: Luiza Brilhante)

Em entrevista cedida ao Cafeína Pop realizada pelo telefone, Juyè contou um pouco mais da vida e da trajetória dela. A mãe de Noaw, fenômeno da internet com as famosas caras emburradas, falou também sobre preconceito, representatividade feminina, polêmicas com gravadora, rap acústico e novos projetos.

Representatividade feminina no rap nacional

Já era sua intenção fazer algo relacionado ao rap quando começou a trabalhar com música?

Não era minha intenção trabalhar no rap. Eu nunca me vi. Nunca achei que eu teria um espaço na cena. Principalmente porque quando eu entrei, não tinham muitas meninas que cantavam, né. Tinha a Lola Salles, que era mais perto da “nova geração” e tinha referências como a Negra Li, a Drik (Barbosa), que cantava. Mas não era muito forte tu ver “mina” cantando, era uma ou outra.

Como é ser uma mulher indígena cantando num espaço dominado por homens e com um público ainda muito preconceituoso?

Assim, ser mulher na cena já é difícil porque a gente tem um espaço e uma visibilidade muito pequena comparada aos homens. E assim, não sou só eu de índia na cena, a gente tem a Brisa Flow, que é uma mulher maravilhosa e que merecia uma visibilidade muito maior por ser quem ela é, por toda história que ela tem, a Souto que também é muito boa e que tá vindo muito forte agora mas que deveria ter tido um espaço muito maior há muito tempo. Existe um preconceito muito grande não por ser índia, mas sim por ser mulher, por cantar, por não rimar.

Por ser uma mulher em um cenário musical muito masculinizado, as pessoas costumam ter mais resistência em te ouvir?

Sempre vai existir uma resistência por tu ser mulher na cena, sabe? Isso aí não tem como negar. As pessoas ainda tentam falar que “não, não tem isso” mas tem sim, a resistência é gigantesca. Mas eu acredito que a gente tá começando a mudar isso. Acredito que daqui a uns anos tu vai ver um espaço muito maior e a gente vai conseguir que os nossos fãs, as pessoas que escutam o rap, vejam as mulheres no mesmo nível. Que compartilhem e divulguem a gente no mesmo nível que eles fazem com os MC’s. Que a gente seja tão aclamada para eles quanto os homens. Mas assim, no meu caso, sempre teve uma resistência muito grande. Principalmente quando eu lancei o acústico (Poesia Acústica #1) – meu Deus. Mas também é questão de gosto, né. Nem todo mundo é obrigado a te escutar e a gostar de você, mas existe uma resistência muito grande.   

De que forma isso prejudica ou atrapalha o seu firmamento como artista desse estilo?

Eu acredito que prejudica porque evita que chegue em outras pessoas, mas é como eu falei, nem todo mundo é obrigado a gostar de você. Por ser mulher é muito difícil. Depois que eu comecei a trabalhar com os artistas que a galera gosta, muitos que estão em alta, as pessoas começaram a me aceitar. É complicado. Por mais que você queira ser uma artista independente, você querer que as pessoas gostem de você, por você e pelo seu talento, elas sempre te colocam na sombra. Como se você só tivesse alcançado aquilo por causa do artista com quem você trabalhou.

Como você vê\avalia o cenário feminino no rap?

Eu acho que tá começando a rolar um espaço maior. Estão surgindo “minas” que estão ganhando cada vez mais espaço mas ao mesmo tempo separam muito a gente por questão de etnias e por quesito beleza ou quem rima melhor. É muita comparação e muita separação também. Não conseguem falar: “po, mina tal é muito boa”, “po, também tem essa” ou “ah, mas você não conhece essas”, “escuta essa aqui”. A gente não vê isso. A gente só vê a galera nos separando e nos comparando muito, o que é muito ruim. Eu particularmente não gosto e acredito que minhas parceiras da cena também não curtem muito isso.

Você já chegou a dizer que recebeu algumas críticas nas suas músicas, bem lá no início, porque fazia ela de forma mais cantada e isso não era tão comum no rap, que é comumente feito com uma rima em cima de um beat. De lá pra cá, isso já mudou de forma que as pessoas aceitem a sua versatilidade nas faixas?

Olha, eu acredito que agora, por várias minas terem começado a fazer isso e outras minas que já faziam começaram a fazer mais, eu acredito que a galera esteja me aceitando um pouco mais. Eu lancei trabalhos que tinham outros artistas que também estavam fazendo isso. O rap foi uma consequência, eu acabei entrando nisso, mas eu sempre cantei. Eu não sou MC, eu não rimo, lógico que se eu me dedicar e estudar eu consigo fazer, como fiz em “Algo Doce”, graças ao Adonai e ao meu grande amigo Yuri. Mas eu ralei pra conseguir fazer aquilo também, porque é muito difícil.

Relação com as outras vertentes do rap

Você é muito boa fazendo dobra e refrão, mas você tem um vídeo muito bom rimando no seu Twitter e também já disse que faria isso no seu álbum. A rima é um estilo que você também pretende se arriscar futuramente?

Eu amo, amo, amo fazer dobra, amo fazer refrão, amo fazer cama de beat, é um negócio que eu gosto de fazer. A galera sempre fala “ah, mas a Juyè sempre faz dobra e refrão”. Mano, é maravilhoso. Quando uma mina entra num som e ela faz esse tipo de coisa, dá um outro ar, porque a voz feminina dá uma outra beleza pra faixa, de certo modo. Aquele vídeo é da faixa “Algo Doce”, com o Adonai, e eu amei quando ele virou pra mim e falou assim: “Juyè, porque então eu não canto e você rima?”. Mas foi difícil. Eu inclusive fiz algumas faixas que vão sair em 2019, porque eu finalmente tomei vergonha na cara pra lançar o meu material. Eu curti. Acho que me superei, de certo modo, e espero que as pessoas gostem. Mas não coloquem muita expectativa de que eu vou ser foda não porque eu não sei se tá tão bom assim. Sei que a galera gosta de criticar. Eu dei o máximo de mim. Espero que vocês entendam isso antes de escutarem.

Você é uma artista que sempre chama atenção nos sons. Como é a sua preocupação na hora de escrever as letras ? Você tem medo de fazer algo e não sair a “nível Juyè”?

Olha, eu não sei que nível Juye é esse (risadas). Mas assim, eu tenho uma preocupação muito grande de conseguir atingir a proposta que eu quero passar ou o artista com quem estou trabalhando quer passar. Na maioria das vezes eu componho as minhas letras, mas os meus trabalhos com o BK’ foi ele quem compôs, eu só interpretei o que ele queria. Mas o que eu mais amei de trabalhar com ele foi que ele foi um dos únicos artistas que chegou para mim e disse: “Juyè, eu fiz isso. Foi isso aqui que eu pensei e….mano, faz o que você quiser aí!”. E daí eu fui e fiz, e ele gostou muito cara, é muito maneiro você trabalhar com uma pessoa que te dê liberdade para você poder fazer o que você acha que vai ficar legal. E eu o amo muito por isso, mas é óbvio que a gente sempre fica muito preocupado em tentar passar algo maneiro e em tentar passar algo em que a galera goste e aprecie.

No Brasil, está acontecendo uma onda de rap acústico há um tempo. Como tudo o que ganha proporção, ele gerou muita discussão, porque apesar das várias críticas negativas, os números de visualizações no Youtube, por exemplo, são gigantescos. O que você acha dessa vertente do rap e das críticas tanto positivas quanto negativas que ele recebeu quando se popularizou?

Por eu ser cantora, foi uma vertente que eu me senti confortável. Eu acho que sou muito boa fazendo acústico por cantar, por poder atingir notas, por poder trabalhar melhor a minha voz. É uma coisa que eu me sinto muito confortável e eu gosto muito. Eu também gosto da questão de que o rap acústico ele cobra do artista uma versatilidade que às vezes ele acha que ele não tem. Então é um momento que você pode se mostrar um artista completo. Você pode se surpreender. Então é muito legal você ver artistas se doando ao rap acústico. Mas ao mesmo tempo é aquela coisa, às vezes satura. Ao mesmo tempo que populariza, eu acredito que fica chato. Mas assim, eu gosto (risadas), mas ao mesmo tempo odeio (risadas).

Polêmica com a Pineapple e carreira internacional

Como foi que você lidou, na sua vida, depois de todo aquele problema ocorrido com a Pineapple?

Hoje, vendo tudo isso que aconteceu, eu acredito que não precisava ter sido daquela forma. Eu agradeço muito por tudo que eles fizeram até porque todos os meus maiores trabalhos estão naquele canal. Eu não posso ser desumilde, eu não posso simplesmente dizer que os caras não fizeram nada por mim, porque fizeram. Só que, tudo que vem de graça, tem um preço. Ou seja, às vezes você tem que escutar coisas, ver coisas e ficar calado simplesmente porque ela pagou pelo seu trabalho e acha que tem o direito de falar o que quiser e não é assim que funciona, sabe?! Eu fiquei muito chateada porque… eu achava que eles eram meus amigos, então foram várias situações. Eu acredito que a história tenha três lados: a versão de um, a versão de outro e a verdade. Tudo o que eu falei foi o que realmente aconteceu, mas eu achava que não precisava ter sido daquela forma. Eu achava que eles não precisavam ter apagado todo o material que eu gravei lá, não precisavam ter sido tão sacanas comigo como foi, tanto com o Raffa (Moreira), quanto com o Jé (Santiago) por besteira. Eles fizeram o que eles queriam, eu saí ferrada do mesmo jeito que o Jé e o Raffa e eles fizeram porque queriam, me sacanearam porque quiseram. Mas, assim, foda-se. A vida dá voltas certeiras, como a galera sempre brinca que eu falo demais isso. Eles continuaram com o sucesso deles e eu to voltando. O BK’ foi uma pessoa muito importante pra mim. O El Lif, Jonas e Rec também foram pessoas que me trouxeram a vontade de cantar. Eu tive uma depressão muito grande depois do que eles fizeram comigo. Só que mano, eu sou escorpiana com ascendente em escorpião, então, eu pensei: “Beleza, vão fazer isso comigo? Vão me sacanear? Então eu vou sacanear também. Vou expor todo mundo e Foda-se. Na hora, não que eu tivesse feito errado, mas eu acho que eu não precisava ter feito daquela forma. Mas foi o que eu disse: eu agradeço por tudo que eles fizeram por mim, mas acho que não precisava ter sido daquela forma.

Esse problema todo se deu em virtude de uma oportunidade de se lançar no mercado internacional. Onde e com quem seria desenvolvido esse trabalho?

Ano passado as coisas acabaram acontecendo muito rápido para mim e eu deixei muitas oportunidades passarem por estar presa tanto com eles (Pineapple), quanto com… enfim, eu fui burra. Eu deixei muita coisa passar e acabou que eu engravidei. Acabou que não rolou do jeito que era pra ter rolado e esse ano eu engravidei de novo. Então eu acabei não perdendo a oportunidade mas tudo meio que foi se atrasando. O “COLORS” é um projeto que, assim que meu filho puder fazer uma viagem de mais horas, eu vou para lá e vai ser realizado porque não foi uma coisa que foi perdida e ainda bem. Eles me entenderam  e vai ser muito legal poder ir mostrar o meu trabalho lá. Foi uma coisa que eu conquistei sozinha, enchendo o saco dos caras, mandando e-mail todo dia e mandando minhas guias. Acabou que eu conheci uma fotógrafa que trabalha lá, que também me ajudou com um empurrãozinho e foi muito legal.

Fora outros canais da gringa como o Majestic Casual, que eu enchi o saco, perguntei se podia pagar pra lançar meus trabalhos lá e tal. Os caras curtiram e me deram essa oportunidade. Mas assim, por que que eu consegui isso? Porque eu fui atrás. Fiquei enchendo o saco dos caras mesmo e não tenho vergonha de falar isso, que eu mandei e-mail todo dia. Porque o não você já tem, agora se vier um sim, ótimo! Se não vier, a gente continua tentando. Porque eu sou chata mesmo e tudo o que eu quero eu vou atrás. Não gosto de depender dos outros. Acho que o meu maior erro foi me permitir estar nas mãos de pessoas erradas. Achar que todo mundo é seu amigo na cena é muito errado. Fica meu conselho: ninguém é seu amigo de verdade. As pessoas podem até gostar de você, mas o máximo que puderem fazer pra te atrasar, vão fazer.

Como aconteceu esse contato com a Majestic e como deve rolar essa parceria? A previsão desse lançamento é para quando?

A faixa já foi gravada. Como eu falei, eu enchi muito o saco – meu Deus! Eu mandava e-mail todo dia. Toda guia que eu achava que era boa, eu gravava e mandava pra eles e lotei a caixa de mensagem deles, e acabou que num dia eles acabaram me respondendo, falaram como que era e tudo mais, e que iriam entrar em contato quando terminassem de escutar as guias. Acabaram gostando de uma e falaram: “Vamos fazer essa parceria.” E eu cedi os direitos da minha música. Falei que não queria saber da monetização porque pra mim o importante era sempre lançar a música, e não encheu meus olhos pedir dinheiro, até porque ter a oportunidade de lançar essa música no canal é uma visibilidade muito grande até porque está atingindo um novo mercado. A princípio, pro primeiro semestre do ano que vem deve sair. Ia sair esse ano, mas por problemas na gravidez, atrasou um pouco. Mas acredito que até junho eu já tenha gravado, pelo o que eles me passaram.

Eu já até re-gravei todo o material que eu perdi. Eu também consegui ajuda de muitas pessoas e beatmakers que me cederam beats e me ajudaram, como o Egydio, o Trick, o Nauk, o Jonas, que me mandou uns beats que eu amei, o El Lif também. Eu também pedi auxílio a eles para me ajudarem. O Jonas e o BK’ têm uma importância muito grande para mim porque eles vão me ajudar e vai sair. Ano que vem eu pretendo lançar tudo o que eu disse que ia lançar. Então eu pretendo lançar tudo pra não sobrar nada. Todas as faixas antigas eu vou lançar também porque eu regravei e foda-se. Se gostarem ok, se não gostarem paciência. Mas são faixas que eu realmente quero lançar porque eu preciso, sabe? Foi muito material que eu gravei e que eu considero ser bom porque eu atingi o que eu queria atingir. Então eu espero que agrade todo mundo, mas vai sair porque meu filho já nasceu e agora é correr atrás.

Novos trabalhos e relação com BK’

Você disse no Twitter que re-gravou e produziu novas faixas com o Nauak, Trick e Egydio. Qual foi a principal diferença que você sentiu ao refazer esses sons com outro estúdio e outros produtores ? Qual é a previsão de lançamento desse trabalho?

Então, o Egydio, o Nauak e o Trick têm uma importância gigantesca para mim. Eu tenho um amor muito grande por eles porque eles produziram todo o material novo que eu vou lançar. Não foi difícil, porque eles são muito bons no que fazem então foi muito deliciosa a nossa parceria. Eu espero muito que a galera curta. Eles me ajudaram a produzir um EP todo com beats deles, então tá muito maneiro mesmo. Tem participação especial, com o Klyn (Recayd). Vai ser uma sexy song que vai sair pelo canal dele. Tenho outras participações mas que eu não gravei. A única que posso adiantar é essa. A previsão é de que saia em fevereiro. Em janeiro eu já vou sair lançando elas e até fevereiro eu já lancei tudo. Agora que meu filho nasceu, eu consegui finalizar tudo que tinha pra fazer. Minha meta é até fevereiro já estar tudo na internet.

As pessoas costumam dizer que você e BK’ se encaixam musicalmente. De que forma você enxerga esses comentários?

O BK’ é meu dengo. Eu sempre chamo ele assim. Ele tem uma importância muito grande pra mim porque eu sempre admirei muito ele. Quando ele me chamou para estar no EP Antes dos gigantes chegarem – Volume 2, eu achei que era mentira. Eu falei: “Não é possível, ele falou com a pessoa errada, ele mandou sem querer pra mim.” Foi muito maravilhoso. Eu me tremi toda estando perto dele e do El Lif, estando no mesmo lugar onde foram gravados os trabalhos deles e dos meninos da Pirâmide. Foi uma experiência muito louca. E assim, maravilhoso essa galera dizendo que eu e o BK’ funcionamos muito bem, porque pra mim é a realização de um sonho estar trabalhando com ele. Ele me dando essa oportunidade, a gente tendo uma amizade. Eu acho incrível. Até chamo ele de mestre. Eu tenho um respeito muito grande por ele. Algumas pessoas extrapolam, achando que a gente fica e eu sou casada. Eu acho que meu marido não gosta muito de ler esse tipo de comentário (risadas) mas faz parte, né. E deixando claro, eu nunca fiquei com ele e tenho um enorme respeito por ele como se ele fosse um irmão, ele é o meu mestre. Eu sou apaixonada pela pessoa que ele é e por poder trabalhar com ele. Eu realmente acho que a gente super combina. Acho que eu nasci pra fazer as dobras dele. E por mim eu fazia as dobras e refrões das músicas dele pro resto da minha vida.

Como foi o convite do BK’ para participar tanto de Antes dos Gigantes Chegarem quanto em Gigantes, novo álbum do dele?

Ele me procurou e na época eu tava na Pineapple Brainstorm ainda e eu não sabia o que falar. Eu juro que fiquei horas olhando a mensagem falando “não, não é possível. Ele mandou errado. Ele realmente quer que eu trabalhe com ele?” Querendo ou não, é um choque. Você trabalhar com um cara que você e as pessoas têm uma admiração muito grande. Pra mim foi incrível estar com ele e com os meninos no estúdio, porque todos, e principalmente o BK’, me deram uma liberdade muito grande. Quando ele me convidou para estar no Gigantes, foi incrível. Eles (Pirâmide Perdida) foram muito respeitosos comigo e demonstraram ter um carinho muito grande por mim também.

Qual foi a sensação de ter participado de um dos álbuns mais esperados do ano e de estar ao lado de um dos principais nomes do rap nacional?

Eu me senti muito foda, vou ser sincera. Quando você trabalha com alguém que você e o público admiram muito, você se sente muito bem. Mas não de se achar por estar trabalhando com o BK’, mas no sentido de você se sentir bem. O “Gigantes” eu ouvi em primeira mão, inclusive no dia que eu fui gravar minha faixa, e pra mim, não só por ser ele, eu acho que foi um dos melhores álbuns do ano.

Adaptação e aprendizado

Você já fechou com a 1Kilo, Bendita, Pineapple Brainstorm Estúdio, Contra Corrente e agora com os meninos da Artefato. Isso te prejudica na hora de consolidar o seu nome no rap e no jeito de compor música, por estar sempre tendo que se adaptar a novas formas e pessoas com quem trabalha?

Eu acredito que por eu ter feito muitas mudanças, isso atrapalhou muito a forma como as pessoas me veem, e por ser mulher isso fica trezentas vezes pior. Mas falando o meu lado, eu tenho uma dificuldade muito grande de me adaptar em certos locais. Eu sou muito difícil de lidar e reconheço isso, mas é porque eu não aceito certas coisas. Se rola machismo e essas coisas, eu não aceito e meto o pé. Eu não gosto de abaixar a minha cabeça para coisas erradas. Por eu ser assim, eu acho que isso me atrapalhou muito. Por isso eu acabei mudando muito. Alguns eu saí de boa e não teve nada demais, saí porque quis. Eu não acho que é errado você sair de um lugar e ir para outro. Acredito que isso gera um amadurecimento muito grande porque você trabalha com vários tipos de pessoas então você entende que precisa se adaptar mesmo, a vida é isso, é você estar sempre se adaptando a coisas novas e vivendo experiências novas. Hoje eu vejo a importância que tem eu ter trabalhado com tantas pessoas. Isso me acrescentou e amadureceu muito. Me elevou a um nível muito alto. Acredito que a Juyè de hoje é uma pessoa muito mais amadurecida e eu vou tentar mostrar isso no meu trabalho.

Você já compôs música para diversos gêneros e cantou junto de vários artistas. De que forma isso te agregou na parte musical (na forma de escrever ou cantar) e na sua própria vida (experiência, ensinamentos)?

Você sempre amadurece muito, como eu já disse, e evolui muito. Você trabalhar para outras pessoas e interpretar a composição de outras pessoas acrescenta muito tanto no seu trabalho quanto na sua vida. Isso gera conhecimento e amadurecimento, o que é muito importante, independente de dar certo ou não. Você tem sempre que filtrar o melhor daquela experiência que você viveu, porque é a partir daquilo ali que você vai reconhecer os seus erros e o que precisa mudar. Pra minha vida isso foi muito bom, mostrou que eu tinha que mudar muita coisa. Eu não acho feio falar sobre isso, porque é quem eu sou. Então se as pessoas tiverem que me conhecer, terá que ser por quem eu sou mesmo. Não tem essa separação de artista pra pessoa. Eu sou assim mesmo: explosiva e não passo pano para nada. Mas ao mesmo tempo eu mudei muito porque isso te atrapalha de uma forma muito grande. Por mais verdadeiro que você tente ser o tempo inteiro, as pessoas nunca entendem isso, então acaba  que você recebe muitas críticas positivas e negativas e aí é preciso se adaptar. Das críticas você pode tirar algo de positivo. Nunca uma crítica negativa vai ser só negativa, sempre tem algo que você pode tirar ou mudar. Mas é muito bom trabalhar com pessoas que você admira ou com pessoas que você não conhece.

Em 2019, Juyè pretende retomar um projeto antigo. Se trata de uma iniciativa para dar beats de graça as rappers brasileiras. Ela conta com o apoio de todos os beatmakers que estão dispostos a ajudar. A ideia é crescer e dar visibilidade a todos os artistas envolvidos. Em breve terá um site onde as meninas poderão se inscrever para pegar os beats cedidos. O projeto está a todo vapor neste início de desenvolvimento e promete revelar muitos nomes de todo o Brasil no próximo ano. Fiquem ligados. Ouça as minas, ouça Juyè e leia Cafeína Pop.

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